Monday, April 11, 2005

Pretensão

Nos comentários a um dos últimos posts do blog que realmente importa, surgiu uma discussão efêmera sobre megalomania ou, para usar um termo menos megalômano, pretensão. O que me dá uma esperada deixa para expor minha opinião sobre o assunto.

Em primeiro lugar, vale a pena tirar a semântica do caminho. Quando a maior parte das pessoas critica alguma coisa por ser pretensiosa, a crítica normalmente é não à pretensão em si, mas ao fracasso de não suceder em tudo o que se pretendia. Exemplo: a construção das pirâmides do Egito não foi, de acordo com esta definição, um ato pretensioso, pois os faraós que o desejaram tinham meios de consegui-lo. Um escravo egípcio que quisesse construir uma morada de três lados para o seu cadáver, por outro lado, seria certamente acusado de pretensão.

A pretensão do escravo, porém, não é maior nem menor do que a do faraó. A diferença está na capacidade de ambos para transformar a pretensão em ato. Daí talvez siga que o único megalomaníaco da história é o escravo, que deseja algo tão além do seu alcance; o faraó, pelo contrário, sabe muito bem o que ele pode conseguir - embora talvez não seja tão difícil limitar suas possibilidades quando é possível fazer quase tudo.

O que importa não é a pretensão pura, e sim a relação entre pretensão e capacidade - e mais, a percepção desta relação. Se eu sou um escritor esforçado, com um estilo razoável mas sem muito talento para desenvolver personagens, não deveria tentar escrever o Grande Romance Americano. Poderia, talvez, ficar nos contos, que exigem menos fôlego. Vôos mais altos fariam minhas asas desmanchar.

Por outro lado, se Ícaro estava errado por ir além de onde poderia, Gagarin também o estaria se tivesse ficado em casa. Pessoalmente, respeito mais as pessoas que tentam ir além do que lhes é possível do que aqueles que operam bem abaixo das suas possibilidades. Pelo comentário que deixou lá no blog do Tija, o Saud discorda, e ele tem um bom argumento: talvez seja mais corajoso reconhecer a própria impotência do que ignorar suas limitações. Mas ainda acho que se fulano pensa que é um gênio, tem mais é que tentar descobrir a cura para o câncer, ou escrever o romance definidor de uma geração, depende do gosto do sujeito. Provavelmente ele não é gênio coisa nenhuma, mas vale tentar. Na pior das hipóteses, é um livro ruim ou uma teoria infundada a mais no mundo; na melhor, é uma revolução.

3 Comments:

Blogger Werner Daumier-Smith said...

Esse último parágrafo foi escrito pelo Raskolnikov.

No mais, seu ponto é o meu, na réplica, mas mais bem elaborado. Daí sua pretensão em fazer um post a respeito e eu apenas uma réplica - diferenças na qualidade do escritor. Mas digressiono (a partir de agora conhecida por MD, de tanto que é usada a expressão) e faço elogios incabíveis a quem é negligente com o blog.

3:33 PM  
Blogger F P said...

Hmmm... Vc tá meio que reeditando aquela idéia dos macacos digitando eternamente, não?

4:39 PM  
Blogger Werner Daumier-Smith said...

E se a sociedade impedisse Napoleão no seu primeiro assassinato? Hein?

6:46 PM  

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